sábado, 24 de setembro de 2011

AMOR - pois que é palavra essencial

Amor - pois que é palavra essencial comece esta canção e toda a envolva. 
Amor guie o meu verso, e enquanto o guia, reúna alma e desejo, membro e vulva. 
Quem ousará dizer que ele é só alma? 
Quem não sente no corpo a alma expandir-se até desabrochar em puro grito de orgasmo, 
num instante de infinito? 
O corpo noutro corpo entrelaçado, fundido, dissolvido, 
volta à origem dos seres, que Platão viu completados: é um, perfeito em dois; são dois em um.
Integração na cama ou já no cosmo? 
Onde termina o quarto e chega aos astros? 
Que força em nossos flancos nos transporta a essa extrema região, etérea, eterna? 
Ao delicioso toque do clitóris, já tudo se transforma, num relâmpago. 
Em pequenino ponto desse corpo, a fonte, o fogo, o mel se concentraram. 
Vai a penetração rompendo nuvens e devassando sóis tão fulgurantes que nunca a vista humana os suportara, mas, varado de luz, o coito segue. 
E prossegue e se espraia de tal sorte que, além de nós, além da prórpia vida, 
como ativa abstração que se faz carne, a idéia de gozar está gozando. 
E num sofrer de gozo entre palavras, 
menos que isto, 
sons, arquejos, ais, um só espasmo em nós atinge o climax: 
é quando o amor morre de amor, divino. 
Quantas vezes morremos um no outro, nu úmido subterrâneo da vagina, 
nessa morte mais suave do que o sono: a pausa dos sentidos, satisfeita. 
Então a paz se instaura. 
A paz dos deuses, estendidos na cama, qual estátuas vestidas de suor, 
agradecendo o que a um deus acrescenta o amor terrestre. 

CARLOS DRUMON DE ANDRADE

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